Coluna Tubo de Ensaio – Sapateado é Música!

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Sapateado é Música

– Por Leonardo Dias

Um sapateador é algo assim entre um músico e um bailarino.

Músico porque seu movimento emite som e esse som tem um valor estético. Músico porque seu pé toca música, oras, simples assim, sem tirar nem pôr! Todas as preocupações de um percussionista estão presentes na criação de um número de sapateado. Dinâmica, andamento, ritmo, acentuação, timbre… swing! O pé faz música, e esta tem que ser boa de se ouvir.

Bailarino porque o instrumento que toca mobiliza todo o seu corpo, exige que ele se envolva inteiro, e isto tem seu efeito plástico (ou ainda, ao contrário: bailarino porque baila com todo o seu corpo, elabora sua movimentação e seu gestual e tem como consequência dessa movimentação o som dos pés…?). O gesto, a espacialidade e outros aspectos visuais da performance são também parte da prática do sapateador.

Penso que, entre a plasticidade espantosa de Fred Astaire e a pungente bateria dos pés de Savion Glover, cada sapateador busca sua própria forma de equilibrar esses dois polos de sua arte: o que se vê e o que se ouve. Não que Astaire não tenha sido um excelente percussionista com seus pés (longe de mim proferir um sacrilégio desses!) , ou que o gestual natural, decorrente da simples reação do corpo de Savion às coisas inacreditáveis que seus pés fazem, não seja algo poderoso de se ver. A questão é observar como cada um desses artistas – que coloquei aqui como “polos” entre o sapateador bailarino e o percussionista – constrói a sua estética.

O fato é que, para além dessa dualidade (unidade?) entre som e movimento, a música – usada como fundo ou meramente a produzida pelos pés – é sempre o fundamento, a base. Mesmo o sapateado mais plástico e voltado para o gesto tem esse gesto “casado” à musicalidade, ritmicamente preciso. E muitas vezes em divisões e acentuações bastante complexas. Assim, o conhecimento musical – prático, vivenciado, corporal – é um fundamento obrigatório do saber de um sapateador (talvez o único outro seja a técnica de sapateado propriamente dita).

A dimensão da música que o sapateador precisa dominar de forma mais imediata e imprescindível é a divisão rítmica – ou seja, a capacidade de manter-se no andamento, ser capaz de contar a música, determinar onde está o tempo forte e poder dividir o “tempo entre os tempos” de forma exata, regular. Mas, a medida em que o interesse pelo aspecto sonoro do sapateado cresce, é possível explorar outras dimensões musicais, como o timbre, a acentuação, e mesmo melodia e harmonia (embora o som do sapato não as possa gerar, é bastante útil para o sapateador, sobretudo em improvisações, ser capaz de perceber esses nuances da música).

É um caminho longo, mas que pode ser desfrutado a cada passo (se me perdoam o trocadilho)!A mágica que transforma os pés em tambores pode ser  dominada através de muito jogo e brincadeira, de forma prazerosa! Até porque, verdade seja dita, o sapateado surgiu como um jogo… sabia?

Leonardo Dias é formado em Artes Cênicas pela UFRGS. É sapateador e músico (flauta transversal). Desenvolve uma pesquisa sobre a metodologia de ensino da improvisação em sapateado americano. É professor de sapateado e diretor artístico do Laboratório da Dança.

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